Terça-feira, 28 de março de 2006 |
Conflitos Religiosos |
Muitas coisas na vida são frustrantes. Mikaela se sentia dessa forma cada vez que abria um jornal. Cadernos e mais cadernos recheados com violência, políticos corruptos, assassinatos e todo o tipo de inutilidade que nos recorda da realidade: viver não é nada fácil.
Por isso, resolveu não ler mais jornais. Assinou a revista de notícias mais popular do país. “As revistas também informam e, ao mesmo tempo, trazem mais cultura!”. Não fora de todo engano... Porém estava muito longe da verdade. Saiu de casa com o exemplar de baixo do braço. Quinze estações de metrô até seu destino tornavam quase obrigatória uma alternativa de entretenimento! A revista viria bem a calhar. Procurou logo um lugar para se sentar e abriu na parte internacional — queria dar um tempo dos escândalos políticos e presidenciáveis. Foi quando se deparou com uma matéria sobre o fanatismo religioso do Oriente, o genuíno contra-senso entre fé, liberdade de expressão e diferenças culturais que levaram à discriminação, morte e assassinato. Fechou a revista antes de alcançar a baldeação. Sua derradeira esperança era mergulhar no trabalho e ocupar a cabeça com outra coisa. “Livre arbítrio”, foi o pensamento sussurrado que ecoou na cabeça de Mikaela. Era inútil negar... Optara por se sentir frustrada! Cruzou o corredor de acesso sem olhar para ninguém, os pensamentos distantes. Antes de subir para a área de pesquisa, pensou em tomar um café e fazer algumas anotações na lanchonete. Suspirou aliviada quando puseram a xícara diante de si. Procurou uma mesa de canto, deixou a pasta na cadeira ao lado e sentou-se. Tinha certeza de que meia hora atrasada não frustraria nenhum dos colegas de trabalho. Sorriu e buscou o caderno de anotações. De repente, uma sombra desconhecida se estendeu na direção da mesa, inconveniente. — Bom dia! — saudou, com euforia, uma voz jovem. — Posso falar contigo um instante? Sem saída, Mikaela ergueu o olhar do bloquinho para a figura. Pelas feições, deveria ser estudante da graduação; pela roupa, — saia comprida e camisa de mangas compridas abotoada até o pescoço — não lhe restaram dúvidas. Antes que pudesse responder “não”, ela já havia se sentado numa das cadeiras vazias. “Mas que droga! Hoje não é o meu dia... E nem começou direito!”. — Você deve se lembrar de mim — começou a garota, estendendo a mão para cumprimentar Mikaela. Apesar de não estar disposta, educação era algo que prezava, de maneira que retribuiu o gesto.— Sou a Adriana! Informei as horas para você na semana passada! — Desculpe, Adriana. Não me lembro. Mas se você diz, acredito. Servida? — perguntou, oferecendo a xícara de café. — Não, obrigada. Qual o seu nome? — indagou ela, com semblante quase angelical — Mikaela. — Pois então, Mikaela... Não vim falar contigo por acaso. “Disso eu tenho absoluta certeza, minha filha!”, pensou, mas segurou a ironia a tempo de não ser rude. Afinal... A tal Adriana não havia falado nada que pudesse chateá-la. “Não ainda”, tornou seu sexto sentido, tentava alertá-la para algo inevitável. Quase se levantou para ir embora. Antes que terminasse de emborcar a xícara, Adriana resolveu continuar. — Vim porque o meu Senhor Jesus me enviou para lhe fazer um convite. Tudo o que Mikaela conseguiu fazer foi deixar a xícara no pires e encarar a tal garota que, com ar muito sério, a mirava com ar quase dramático. — Desculpe... Acho que não entendi. — O Senhor me colocou no seu caminho para livrá-la do demônio que a acompanha. Dividida entre a raiva e a estupefação, Mikaela gargalhou alto, atraindo a atenção de alguns clientes e, ao que parecia, ofendendo Adriana. — Demônio? — Sim. Você não acredita no demônio, mas ele está em toda a parte. Não acreditar nele é o que lhe dá forças! Mikaela se inclinou na mesa em direção a Adriana e sorriu de lado, sarcástica. — Por que você acha que tem direito de vir até aqui, sentar na minha mesa em plena manhã de segunda-feira e dizer que estou acompanhada de um demônio? — Esse é o meu papel, é a minha crença! — devolveu Adriana, firme. — Pois não é a minha. Eu acredito noutra coisa, mas não fui até você te encher o saco nem te impor o meu ponto de vista! Esse é o problema dos fanáticos. — Não sou fanática! Eu... — Olha... — interrompeu Mikaela. — Vou te fazer uma proposta: vou a uma sessão da sua igreja se você for num psiquiatra contar para ele que vê demônios O que você acha? — silêncio. — Como eu imaginei. A gente se vê por aí. Mikaela pegou sua pasta e saiu da lanchonete pisando duro. Aquilo era demais para agüentar, não? Ao longe, ainda ouviu a tal Adriana dizer que estaria à disposição quando o Demônio aparecesse. Como se realmente fosse aparecer. A raiva era tanta que entrou no banheiro feminino sem se dar conta. Vazio. Aproveitou para jogar uma água no rosto. Mais tranqüila, ergueu o olhar para sua própria imagem no espelho... E deparou-se com uma figura estranha que, próxima à porta, a encarava com ar sério. Trajava uma túnica diáfana que disfarçava sua silhueta esguia. O cabelo longo, de um loiro pálido e esquisito, estava trançado com tiras cintilantes. Mas o mais perturbador eram seus olhos, de um vermelho vivo. “Ai meu Deus!”, gritou em pensamento, encolhendo-se e olhando de canto para a porta do banheiro. Não havia nada lá. Suspirou, as pernas trêmulas. Buscou o batom no estojo de maquiagem e voltou ao espelho, convencida de que ficara impressionada. Seu olhar mergulhou no vermelho abrasador das íris daquela criatura, agora a um palmo de distância. — Quem é você?! — tornou, os olhos fixos na imagem refletida. “Se continuar falando assim, vão sugerir que vá a um psiquiatra...”, a voz soou direto em sua mente com uma ponta de sarcasmo. “Não vai dar esse gostinho a ela, vai? Eu ouço os seus pensamentos...” Mikaela respirou fundo, tentando raciocinar: estava no banheiro feminino, de frente para o espelho “pensando” com uma coisa que não existia! Talvez, devesse mesmo procurar um psiquiatra e, de quebra, processar aquela fanática religiosa que a deixara perturbada. “Quanta besteira...”, disse ele, sentando na borda da pia e vagando o olhar pelo ambiente. Mikaela aproveitou para olhar diretamente em sua direção. Nada. “Não se preocupe, agora que me mostrei, em breve poderá me ver de verdade. Não estava nos planos alguém te avisar a meu respeito”. “Você é um demônio?”, indagou, buscando-o pelo espelho e se deparando com o semblante consternado. “Demônio?! Olha bem pra mim, mulher! Pareço um demônio para você?!” “Como vou saber? Nunca vi nenhum...” Ele riu com gosto. Sua gargalhada foi tão alta que Mikaela chegou a ouvir! Mas não como uma gargalhada comum e sim como o repicar distante e suave de sinos. “Pode me chamar de Jô. Sou seu anjo da Guarda!”, disse ele. “Mas não espere muito não, que sou novo nesse trampo...” “Novo?! Como assim, novo?! Vocês não existem desde sempre?” “É. Mas antes eu só abanava o Cara, entendeu? Bom... Não estou autorizado a te contar mais nada. Ah... Vê se não se mete em mais confusão, certo?” Confusão? Não fazia idéia a que aquela criatura esquisita se referia! Quando procurou por ele através do espelho, havia desaparecido. Num reflexo comum, Mikaela se virou na tentativa de encontrá-lo... E o banheiro estava apinhado de gente, — com certeza por causa do intervalo das aulas — todas olhando de soslaio como se fosse a maior aberração do planeta. “Ainda mais essa! Aberração aqui, só ele!” “Eu ouvi isso, Mika!” “Não me chame de Mika, sua... Coisa!”, tornou, pegando sus pertences e deixando o banheiro para trás. Entrou na própria sala, louca para trabalhar. Como que por acaso, a revista, ainda aberta na tal fatídica matéria religiosa, caiu no chão bem diante dela. “Conflito religioso é apenas mais um fator que inibe o bom-senso...” Num acesso de ira, Mikaela pegou a revista e rasgou-a no meio, sob o olhar curioso de seu colega de pesquisa. — O bom-senso que se dane! |
Postado por Mikaela, às 11:26 |
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Nome: Mikaela Dangelus Idade: 28 anos Profissão: Pesquisadora Signo: Escorpião Ascendente: Aquário |
Espiritualizada, mas nem tanto... Crédula do merecimento, da justiça, do amor e da humanidade . Uma mulher que tenta bravamente domar o fluxo incontrolavel dos acontecimentos. Muito tempo para sonhar e pouco para colocar os sonhos em prática. Atrapalhada na cozinha, mas jeitosa com a faxina.
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