| Domingo, 21 de Maio de 2006 |
Direitos e Deveres |
Existem dias que a gente sabe que tudo vai dar errado. O problema não é esse . Problema é quando somos pegos de surpresa . E quem nunca passou por isso ... Como atirar pedra é muito extremista , levantar o dedo está valendo nesse caso . Acordar antes do despertador tocar , por si só , já era uma façanha . Aliás , seu maior caso de amor era mesmo com a cama . Mas aquele dia parecia diferente dos outros . Abriu a janela para olhar o pedacinho de céu disponível . Dava para deduzir que não havia uma só nuvem no céu ! A promessa de um lindo dia afastou os fantasmas . Havia deixado o emprego de meio-período por causa do chefe e agora estava trabalhando só com pesquisa na parte da manhã . Claro que era temporário porque adorava a USP e pretendia trabalhar lá por muito tempo ainda , mas precisava pagar as contas , mal necessário e fiel que aflige 99% das pessoas do mundo ! Ao 1% restante cabia todas as demais categorias . Correu para cumprir sua rotina matutina . Saiu um pouco mais cedo para comprar o jornal e esperar o ônibus . “MP3 player” no ouvido , classificados de emprego à mão , pasta debaixo do braço e meia hora de espera ao vento do auge de junho . O sol não se intimidara, brilhava como nunca ... Sem espantar o frio . Até a USP eram duas horas de condução . Para tal , separou quatro reais em notas de dois , para a integração metrô-ônibus ( Quem não mora em São Paulo: é possível comprar um bilhete especial em determinadas linhas de ônibus , que permite aos passageiros pagarem uma única taxa para metro + ônibus com economia de 50 centavos por bilhete ). Ao embarcar , cumprimentou o motorista com um simpático “ bom dia ”. Até aí , Mikaela estava convencida de que seria um dia ensolarado comum , se não ordinário . Ela estava realmente preparada para isso : ir para a USP, trabalhar as suas seis horas , conversar um pouco com o único colega de sala e voltar para a casa . Nem se apercebeu de que Jô não estava a vista desde a noite anterior . Foi encontrá-lo dentro do ônibus , lá no fundo , equilibrado num dos encostos . Fingiu que não estava vendo. Havia vários assentos livres e queria ficar bem longe de encrenca . — Bom dia — foi o cumprimento que ela lançou ao cobrador , segurando firme para não cair . — Você tem integração para vender ? — eles nem sempre tinham... — Tenho — respondeu o homem , erguendo o olhar da apostila que estava lendo e mirando Mikaela com cara irritada. Ignorou o mau humor dele e estendeu as duas notas de dois reais , com um sorriso satisfeito . — Mas não tenho troco , não — foi a resposta grosseira que ele deu antes de baixar o olhar à apostila novamente . — Você não tem troco ?! — perguntou, espantada, retirando os fones para ouvir melhor . Ele nem respondeu dessa vez . — Mas a passagem é três e sessenta! Está me dizendo que não tem quarenta centavos para me dar ? — Não tenho troco ! — declarou novamente , mais alto . — E você está atrapalhando a minha leitura ! A falta de educação dele era tamanha que Mikaela não conseguiu dizer nada por um segundo . E ficou ali , estática . Aos poucos , a estupefação virou revolta . Mesmo que ele não tivesse troco , tinha o dever de ser gentil com as pessoas , ainda mais se estavam sendo gentis com ele ! O sangue ferveu e não teve jeito . A moça agarrou a pasta debaixo do braço e empertigou os ombros em cima do salto . — Bom ... O negócio é o seguinte : você tem o bilhete disponível e eu tenho direito de comprar . Estou com o dinheiro aqui , na minha mão . Se até o meu ponto você não tiver os quarenta centavos , não tem problema ! Eu desço pela frente . E, tendo dito isso , Mikaela se afastou alguns passos para arranjar espaço próximo à porta da frente . Sua sorte era que seu ponto era numa estação de metrô e, àquela hora , o motorista seria obrigado a abrir para os passageiros embarcarem. Quando percebeu que o cobrador ia começar a falar novamente , pegou discretamente o aparelho de MP3 e deixou-o à mão . — Olha aqui dona , eu não tenho obrigação nenhuma de vender o bilhete de integração para você , não ! Vê se arranja o Bilhete Único ( cartão magnético que substituiu o dinheiro e os bilhetes de metrô nas integrações ) — continuou ele , berrando para o ônibus todo ouvir . — Tô falando contigo mesmo , aí na frente . Você não quer é pagar a passagem ! Tá querendo dar calote ! Vejo gentinha que nem você todo dia . A raiva era tanta que Mikaela sentiu os olhos turvos . Queria voar no pescoço do infeliz e enchê-lo de pancada , mas não fez isso . Ao contrário , esperou que o ônibus parasse num semáforo mais longo , pegou a caneta no bolso de dentro do casaco e pôs-se a anotar todas as informações do veículo . Não satisfeito , o cobrador começou a gritar que ela reclamasse sim , que não ia dar em nada mesmo . Berrou seus dados pessoais também , como nome , número de registro na empresa , número do ônibus ... Tudo intercalado com novos insultos . Depois de uns 20 minutos nesse martírio , tendo Mikaela se tornado a atenção principal do ônibus , finalmente ele se calou. O restante da viagem transcorreu sem incidentes – apesar de seu dia estar arruinado logo pela manhã . A vontade de gritar era quase insuportável ... Mas , de repente , ao avistar seu ponto , Mikaela sentiu uma paz imensa e um perfume de lavanda delicioso invadiu o ambiente . O veículo parou e, quando virou para descer pela porta da frente , deu de cara com Jô, fazendo uma careta engraçada . O perfume de lavanda aumentou. — Hei, moça — o chamado do motorista a impediu de descer por um segundo . — Vai sair pela frente ? O sangue ferveu outra vez pela lembrança do ocorrido mas se controlou com tranqüilidade . — Pois é. O cobrador tem a integração e diz que não quer me vender porque não tem troco para quatro reais ... — explicou, com gentileza . — Ela tem dois reais para pagar a passagem . Não paga porque não quer ! Quer viajar de graça ! — tornou o cobrador , aos berros Mikaela ignorou-o e fitou o motorista novamente . — Tenho quatro Reais para comprar Integração . Ele tem obrigação de me vender o bilhete . Se não tem troco , saio pela frente . O motorista assentiu e abriu a porta . Antes de descer , Mikaela olhou uma última vez para o cobrador , sorrindo. — Vou ligar para o número de reclamação e dar todos os seus dados ... — ele deu de ombros . — E vou aproveitar para dizer que você me difamou dentro do ônibus aos berros . Gravei tudo o que você me disse... — e mostrou o aparelho de MP3 — Tem microfone . Foi quase orgasmático ver o ônibus se distanciando com o rosto pálido do cobrador colado no vidro . Embarcou no metrô , pegou o segundo ônibus e foi apenas quando estava dentro , já na Cidade Universitária que pegou o celular na bolsa . Não queria falar no serviço para não abrir sua vida particular . Afinal de contas , foi a maior vergonha ! Quando ouviu a atendente , descreveu todo o ocorrido em detalhes , passando para ela os dados recolhidos no ônibus . A queixa foi registrada formalmente e anexadas as informações de que o cobrador a havia difamado e que o motorista , por outro lado , havia sido muito gentil . Finda a ligação , anotado o protocolo , ergueu o rosto e mergulhou nos olhos vermelhos de Jô. Ele tinha o semblante sério e foi muito estranho vê-lo desse jeito . “Está mais feliz agora ?” — Feliz ? Hummm... Não sei, porque o cara pode perder o emprego , não é? Por outro lado , o que ele fez é errado e me senti agredida. Não estou feliz , fiz apenas o que era certo . Espero que ele não faça algo assim novamente . Por que está me perguntando isso ? “ Por nada ! Apenas para que você saiba depois que esse foi o motivo das suas atitudes . As pessoas agem assim : na maioria das vezes ferem umas às outras porque não pensam sobre o efeito de seus atos . Elas não avaliam as conseqüências ... Bom , não quero que isso aconteça contigo ”. — Jô... Não vou me arrepender , fique tranqüilo . — Quem é Jô? — foi uma voz familiar que a alcançou, por trás . Vexada, Mikaela virou lentamente , bem a tempo de ver seu colega de sala tomar assento ao seu lado . — Achei que estava falando com o serviço de reclamação dos ônibus . — Ai... Rodrigo! Falei muito alto ? O rapaz riu. Era alto e esguio . Tinha aproximadamente uns 26 anos , mas cara de 16! Cabelos loiros e lisos até os ombros , olhos azuis, feições finas e clássicas. Sim ! Ele era MUITO bonito ... E parecia um anjo de verdade ! Por que seu anjo não parecia um anjo e Rodrigo parecia? “ Mais um dos mistérios que regem o universo , minha cara ! Se não está satisfeita , troca !” “Estou no meio de uma conversa agora . Não me atrapalhe”, tornou em pensamento , não muito certa de que Jô daria ouvidos . — O ônibus está vazio e essas atendentes sempre falam muito baixo — sugeriu ele . — Mas deu para pegar a parte que ele te insultava em público . Dia ruim ! — Nem me fale... — comentou, ainda mais vermelha . Jô se aproximou e agachou bem ao lado de Rodrigo. Da onde estava, Mikaela teve a impressão que enfiaria sua cara na do rapaz . “ Pelo amor de Deus , Jô. Pára com isso !” “ Ele não pode me ver ...” “ Mas EU posso!” Jô deu de ombros e se afastou na direção da porta traseira . “Saquei. Prefere o seu amigo Templário a mim , né? Tudo bem .”, diante da expressão surpresa da moça , Jô sorriu, piscou e desapareceu, não sem antes deixar sua voz pairando. “ Eu estarei por perto ...” — Mikaela?! — a voz preocupada de Rodrigo a trouxe de volta . — Tudo bem contigo ? — Tudo ... Desculpa ! É que o final de semana foi meio tumultuado. Sabe como é... — Ah, sei! Mas tirei esses três dias para mim . A gente nem pôde conversar sobre o seu problema lá no outro emprego . — Puxa , Rodrigo! Esse assunto é tão longo que é melhor a gente marcar uma tarde só para conversar sobre isso — sugeriu. Se ele aceitasse, seria o máximo ! — Mas me conta ! Por que faltou na sexta-feira ? Deram o sinal e desceram quase em frente ao prédio da faculdade . O sol estava mais forte e o frio ali era ainda maior ! Caminharam lado a lado pela calçada , sem muita pressa . — Acho que acabei não te contanto , né? Mas fui aceito na Ordem Templária e... — Como ?! Ordem ?! — foi impossível conter o susto . Rodrigo olhou para ela , divertido . — É. A Ordem dos Cavaleiros Templários. Sou um Templário agora . Viajei sexta-feira e passei o final de semana no sítio da Ordem , para a minha iniciação . Mas é um assunto bem longo . É melhor a gente marcar ... — No mesmo dia que eu for contar sobre o meu trabalho . — Que tal ... Hoje de tarde ? Tem alguma coisa para fazer ? — Não ... — respondeu ela . — Legal . Te pago um cinema ... Mikaela sorriu e se encolheu dentro do casaco . O dia não estava todo perdido, afinal |
Postado por Mikaela, às 12:07 |
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Nome: Mikaela Dangelus Idade: 28 anos Profissão: Pesquisadora Signo: Escorpião Ascendente: Aquário |
Espiritualizada, mas nem tanto... Crédula do merecimento, da justiça, do amor e da humanidade . Uma mulher que tenta bravamente domar o fluxo incontrolavel dos acontecimentos. Muito tempo para sonhar e pouco para colocar os sonhos em prática. Atrapalhada na cozinha, mas jeitosa com a faxina.
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