Quarta-Feira, 04 de Junho de 2006
 
Revelações
 

O dia começara muito estranho , meio que enevoado. Para começo de conversa – ou pensamento – esquecera completamente de que o aniversário do Rodrigo estava marcado, a mais de um mês , para aquela noite ! Deveria ter comprado um vestido novo ... E não poderia chegar na festa sem um presente porque ... Bem , porque o Rodrigo era seu " sonho de consumo ", mesmo sabendo que o rapaz não estava interessado. Ao menos , não parecia!   Conformada com o destino , Mikaela deu de ombros e vestiu um casaco qualquer para sair pela cidade a procura de algo apropriado . Quando caminhava para a porta , uma voz familiar ecoou no apartamento . Por incrível que parecesse, não se assustou. Voltou o olhar na direção do corredor e aguardou. Um rapaz bonito , de cabelos castanhos e intrigantes olhos verdes irrompeu pelo recinto . Vestia uma calça preta de brim e uma malha de lã masculina em dois tons de verde que lhe realçavam o brilho dos olhos .   - Aonde vai? - perguntou ele , cruzando o aposento na direção de Mikaela e enlaçando-a pela cintura com familiaridade .   - Eu ... Hoje é aniversário do Rodrigo e quero comprar um presente especial para ele .   A repulsa foi imediata . O rapaz soltou-a, se afastou dois passos se tanto e a encarou com seriedade .   - Já lhe disse que o cara é chave de cadeia , é perda de tempo ! Poderia se dedicar a quem te ama de verdade !   - Ah, Josiel... Não fala assim do Rodrigo – e o nome dele lhe pareceu estranho de repente . – Porque não vem comigo ? Seria bom ter uma opinião masculina .   Ele deu de ombros e saíram para a manhã fria daquele início de junho . O dia estava lindo , o sol fraco mal aquecia. Sem perceber , Mkaela passou o braço pelo dele e sorriu.   - Já tem alguma idéia ? – foi a pergunta dele.   - Não . Só sei que deve ser bem especial .   - Por que não procuramos alguma coisa esotérica ? Ele é Templário, não é? Mikaela olhou para o outro com desconfiança. Não lhe agradava a idéia de dar algo que estivesse relacionado com seitas ... Crenças ... Ou qualquer outra coisa de cunho tão pessoal . Ainda assim , quando se deu conta , entrava com Josiel pelo batente envidraçado de uma loja esotérica próxima de casa . Nunca se apercebera de que aquela loja existia! Muito estranho ... - O que acha que seria legal dar para ele ? – perguntou a moça , caminhando lentamente entre as prateleiras de vidro , apinhadas de gnomos , incensos , cristais e outros badulaques típicos . - Deixa ver ... Além da sua virgindade ? – estupefata , Mikaela olhou-o, certa de que era uma brincadeira de muito mal gosto , mas Josiel tinha a atenção voltada para uma estante de miniaturas em metal . Seu semblante era sério . – Por que não dá uma espada medieval ? Acho que ele iria gostar ! - Espada ? Não sei não ... – tornou desconfiada , se aproximando do rapaz , não sem antes olhar em volta para ter certeza de que ninguém ouvira o comentário indecente . Josiel a fitou e sorriu, sem motivo ... Um daqueles sorrisos doces e plenos que raras pessoas são capazes de oferecer . Foi a primeira vez que percebeu o quão bonito ele era . Lindo , na verdade . Josiel era uma das criaturas mais lindas que já tivera oportunidade de ver em sua vida . Invadiu-a um sentimento estranho , bem diferente do que sentia por Rodrigo. Afastou aquilo da cabeça quando percebeu a aproximação o dono da loja . - Boa tarde . Em que posso ajudá-los? Perdida, a moça parou um segundo para pensar em que momento a manhã terminara, visto que saíra de casa bem antes do horário do almoço . Foi o suficiente para que Josiel se virasse na direção do homem e, sorrindo, soltasse uma de suas " pérolas ". - Temos um amigo Templário e queremos dar uma espada para ele . A adoração foi substituída, imediatamente , por gana assassina ! Absurdo ! Como ele pôde se voltar para um desconhecido , falar da intimidade do Rodrigo e ainda os colocar naquela situação ? Revoltada, Mikaela fuzilou o rapaz com o olhar , principalmente quando o dono estreitou os olhos .   “ Pronto ... Agora ele vai nos chutar daqui!”   A realidade foi completamente diferente . O homem olhou em volta , como se certificando de que não havia ninguém por perto e, com um gesto de cabeça , os convidou para o fundo da loja .   - Por aqui , por favor .   Mikaela não queria ir , de jeito nenhum . Mas Josiel não facilitou as coisas e pôs-se a seguir o indivíduo . Receosa , a moça puxou-o pelo braço com sutileza , ansiosa para que ele entendesse que não queria continuar . Foi nesse instante que os olhos de Josiel baixaram para os seus , com um tom de verde tão vivo que fez com que o ar lhe faltasse. O rapaz sorriu e, sem avisar , tomou-lhe os lábios num beijo possessivo .   Passada a estupefação , um calor delicioso subiu-lhe pelas costas , arrepiando cada pêlo de seu corpo e queimando sua pele . Josiel se afastou, tão quente quanto si própria , sorriu, acariciou-lhe a face em chamas e, em seguida , se abaixou para sussurrar-lhe junto ao ouvido .   - Confie em mim . Tudo vai dar certo , querida ...   Atordoada, Mikaela só se deu conta de que estavam numa espécie de quartinho escuro quando o homem fechou uma pesada cortina de veludo preto atrás de ambos .   - Podem tirar a roupa , se quiserem – declarou, como se falasse sobre o tempo ! Mikaela quase desmaiou de pânico .   - Hoje não . Queremos apenas a espada , obrigado .   - Vocês é quem sabem. Bem ... Tenho aqui alguns modelos , para todos os gostos .   Para abstrair um pouco daquele disparate sem fim , Mikaela se aproximou de algumas réplicas pequenas de espadas . Já abolira a convicção de antes para presentear Rodrigo com outro tipo de coisa . Na verdade ... Se esquecera completamente de Rodrigo quando Josiel a beijara e nunca , em toda a sua vida , sentira algo assim por alguém . Uma infelicidade imensa tomou conta dela e não conseguiu saber de onde vinha . Buscou o rapaz com o canto do olho . Ele conversava animadamente , tão lindo !   Foi nesse instante que o homem tirou uma espada gigantesca de trás de uma outra cortina e passou-a para as mãos de Josiel que , animado , se virou para a moça .   - Olha , Mika! Achei o presente perfeito !   - Meu Deus ! Isso é... Uma espada ! De verdade !   O rapaz a fitou confuso.   - Sim e não é perfeito ?   - Não , Josiel! É... Um absurdo ! Tudo isso é um absurdo : o nosso dia , essa loja , esse homem , aquele beijo e essa espada ! Será que você não vê ?!

Josiel continuou olhando para ela por um segundo , o semblante sério .

- Podemos discutir nossa relação se você quiser, querida . Mas não aqui – declarou, se voltando para o homem novamente . – Vamos levar . Ela é perfeita .

- Sim . Não encontrarão outra réplica em tamanho original da Excalibur.

- Excalibur?! Você enlouqueceu, Josiel?! – tornou, em pânico , se aproximando para ver melhor . De fato era um lindo trabalho , mas ...

- Ele vai adorar , Mika! Afinal ... Qual Templário não gostaria de ter uma Excalibur? Quanto é?

Fez um breve silêncio e o sangue de Mikaela gelou nas veias .

- Dois milhões .

 

“ Dois milhões ... Meu bom Deus ... Isso não pode ser verdade !”, pensou Mikaela, tentando controlar a vertigem . Josiel alargou ainda mais o sorriso .

- Ótimo – tornou o jovem.

- Péssimo! – berrou Mikaela. – Não tenho todo esse dinheiro!

- A gente coloca no seu cartão de crédito... – sugeriu Josiel com um sorriso luminoso.

- Mas... Eu nem tenho esse limite!

- Tem sim.

E, por alguma força incompreensível, não conseguiu dizer nada, de maneira que eu pouco menos de vinte minutos saíam da loja com uma dívida praticamente impagável, uma espada gigante nos ombros e aquele peso estranho no peito. Josiel carregava a parte da lâmina, envolta num papel reciclado, enquanto que ela carregava o punho. Era ridículo carregar aquele trambolho daquela maneira, mas não tinham alternativas.

- Você não vai me convencer a sair de casa com esse negócio... – disse ela, quando pararam no semáforo, atraindo o olhar de todos os transeuntes.

- Mas não vamos para casa, querida. Temos que entregar o presente, lembra? Vamos direto para a casa do Rodrigo.

Depois de toda a loucura daquele dia, Mikaela não estranhou quando Josiel anunciou que a casa de Rodrigo era logo ali, virando a esquina. Até suspirou aliviada, ansiosa para se livrar do presente. A alameda pareceu e muito com a travessa em que trabalhavam, mas mesmo isso ignorou. Queria se livrar daquela espada antes que algum policial a parasse e detivesse por porte ilegal de arma!

Subiram duas quadras. Uma multidão se aglomerava na frente de uma casa térrea enorme, com os portões abertos. O terrível não foi saber que aquela era a casa do Rodrigo e sim ver uma dezena de pessoas deitadas ao longo da entrada, conversando animadamente, bebendo e fumando, largadas no chão como se fosse a sala de estar de alguém. E todos, sem exceção trajavam roupas inteiramente pretas, com acessório de metal, piercings, correntes... Além dos cortes de cabelo pouco usuais! Olhou para Josiel e percebeu que até mesmo ele estava incomodado com acena. Começou a se preocupar de verdade nesse instante.

Então, como que brotado do chão, um homem surgiu na frente de Mikaela. Com muito custo conseguiu identifica-lo.

- Rodrigo? – perguntou com cautela, tentando reconhecer o anjo de candura que conhecia por detrás do corte moicano.

Ele sorriu e a abraçou com intimidade. Mikaela mal pôde retribuir, tamanho o susto! O cabelo dele estava verde, tinha argolas prateadas nas orelhas, supercílio, lábios... Porém o sorriso meigo continuava o mesmo. Ainda assim não o reconheceu.

- Feliz aniversário, Rodrigo – se adiantou Josiel, tirando Mikaela do estado de torpor com sua voz agradável.

- Sim... Parabéns. Esperamos que goste do presente – declarou, passando a espada para as mãos de Rodrigo.

- O que é isso? – perguntou, curioso, após ter removido o papel de pão que Josiel utilizara ara proteger as mãos da lâmina.

- Uma réplica fiel da Excalibur. Talvez você possa usar... Em algum ritual de magia – sugeriu ela, meio sem graça.

- Magia? Ah, sim... – começou ele, o tom tranqüilo que não combinava com a nova aparência. – Não sou mais Templário! Agora sou Punk!

Vácuo naquele um segundo de Pânico no qual imagens rápidas da jornada até ali a lembravam de detalhes, como o da dívida que fizera para dar a ele um presente como aquele. Num reflexo, Mikaela pôs-se na ponta dos pés e tomou Rodrigo pelo colarinho com fúria.

- Como assim não é mais Templário?! Você era Templário até ontem!!

- As coisas mudam rápido, gata – tornou ele, se afastando e subindo na garupa de uma moto, que acabara de encostar na frente da casa.

Rodrigo acenou, deixando para trás uma Mikaela desolada. A moto cantou pneu e saiu roncando veloz pela rua, no mesmo instante em que a mão quente e terna de Josiel lhe pousou por trás no ombro.

- Nada acontece por acaso, Mika... Talvez agora você compreenda que perfeição é fazer aquilo que está ao nosso alcance dando o máximo de nós, nem mais nem menos.

- Tem razão... E eu nem acho que foi um presente perfeito! Não sei o que poderia acontecer de pior hoje – murmurou, enquanto acompanhava Rodrigo ir embora de carona.

- Bem, você poderia estar guiando aquela moto.

As palavras de Josiel ecoaram pelo ar um segundo antes da moto desaparecer em meio a um barulho ensurdecedor, seguido de explosão.

* * *

Mikaela se sentou na cama, suando frio e ofegante. Por um segundo, não sabia onde estava até reconhecer seu próprio quarto, sua cama, sua casa. Suspirou aliviada, correndo as mãos pelos cabelos para espantar um pouco a sensação de morte.

“A morte é a única certeza que as pessoas têm na vida. Não consigo compreender porque a temem tanto...”, foi o comentário sereno que ecoou em sua mente, obrigando-a a se virar na direção dele. “Noite ruim?”.

Jô estava apoiado no parapeito da janela, por onde entrava a luz azulada da lua. As cortinas de renda balançavam suaves ao sabor da brisa, se entrelaçando com as vestes dele e lhe atribuindo um ar ainda mais diáfano. De onde estavam podia ver apenas parte de seu corpo esguio e o perfil de traços harmoniosos que compunham o todo de sua imagem etérea. O silêncio se estendeu por mais tempo que o usual. Percebeu quando Jô psicou e voltou o rosto atemporal em sua direção, os olhos vermelhos brilhando como chamas, os cabelos longos trançados com tiras de prata.

“Você está bem?”, perguntou, descendo da janela com movimentos leves e avançando na direção dela.

- Sim! – respondeu, urgente. – Não precisa vir até aqui.

“Não preciso ou não devo?”

Novo silêncio, dessa vez mais tenso.

- Não sei...

“Compreendo”.

Ao contrário do costume, Jô não voltou ao parapeito. Dessa vez, ficou parado no mesmo lugar, no meio do quarto, fitando Mikaela com atenção desconcertante. A sensação de ser tocada por ele, de ter os lábios doces nos seus, a fizeram estremecer e baixou os olhos, envergonhada e entristecida.

- Seu nome é Josiel?

“Sim. Como descobriu?”

Mikaela deu de ombros e ergueu o rosto novamente, sem contudo fitá-lo.

- Por que não me contou?

“Porque não gosto dele e porque julguei que não faria diferença para você”.

- É um anjo. Não deveria julgar, não é verdade? – e, dessa vez, foi impossível não se perder em seus olhos rubros.

Cauteloso, Jô avançou, bem lento, até se sentar na beiradinha da cama, bem distante dela.

“Você tem razão. Tem razão em muitas coisas, Mika! Muito mais coisas do que imagina. Eu não deveria julgar. Talvez não o faça como você pois não sou humano. Porém já vivi tempo suficiente entre a humanidade para...”, cessou de repente, como se refletisse sobre o que dizia.

- Para o quê? – indagou, ansiosa.

Josiel voltou o rosto para ele e sorriu... Doce como o rapaz em seus sonhos. Os olhos de Mikaela marejaram.

“Para me encantar por ela ”.

Um sentimento imenso preencheu o peito de Mikaela a ponto de se sentir sufocada. Quando deu por si, chorava copiosamente. Josiel se aproximou e, apesar de não senti-lo como no sonho, viu quando se sentou à cabeceira da cama e ofereceu seu colo para que deitasse. As mãos dele acariciaram os cabelos de Mikaela enquanto sua voz serena entoava uma música suave que levou embora a dor, apesar de sentir a ausência do toque dele em sua pele. Não comentou nada. Apenas fechou os olhos, cansada.

- Não quero ir ao aniversário do Rodrigo hoje.

“E por que, não? Estava muito empolgada para estar com o seu querido”, a brincadeira só fez Mikaela se sentir mais perdida.

- Não conheço ninguém lá... e a nova namorada dele vai estar, então... Pensei que, talvez... Pudéssemos...

“Pudéssemos o quê?”, e a pergunta continha apenas curiosidade.

- Sei lá! Podíamos ir ao cinema, depois comer em algum lugar. O que acha? – silêncio... insuportável. Decidiu continuar para não perder a coragem. – Você poderia me contar mais da sua visão da humanidade e então... Não seríamos mais estranhos um para o outro.

“Você não é uma estranha para mim, querida”, o tratamento fez Mikaela estremecer sem querer e se encolheu mais contra as cobertas. “Sei tudo sobre você”.

- Mas eu não sei nada sobre você, Jô... Agora, isso me incomoda.

“Certo. Por que não combinamos pela manhã, depois que tiver descansado e se esquecido desse sonho absurdo? Não será justo contigo, não será correto... Eu sei. Mas estou feliz, pois ao menos você é abençoada com a dádiva do esquecimento. É melhor assim” .

O cansaço era tamanho que Mikaela mal pôde ouvir o que ele lhe dizia, contudo ficou-lhe a estranha sensação de que seus pensamentos não lhe pertencam mais... De que tudo aquilo se perdia em brumas. De qualquer forma, a sensação de leveza era deliciosa e relaxou contra o colchão, pronta para adormecer com o perfume dele entranhado em seus sentidos.

- A questão é... Querido Jô... Não quero esquecer...

Antes que pudesse completar, adormeceu com um sorriso leve nos lábios.

 
Postado por Mikaela, às 08:46
 
 
 
 
Nome: Mikaela Dangelus
Idade: 28 anos
Profissão: Pesquisadora
Signo: Escorpião
Ascendente: Aquário
 
 
Espiritualizada, mas nem tanto... Crédula do merecimento, da justiça, do amor e da humanidade . Uma mulher que tenta bravamente domar o fluxo incontrolavel dos acontecimentos. Muito tempo para sonhar e pouco para colocar os sonhos em prática. Atrapalhada na cozinha, mas jeitosa com a faxina.
 
 
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Jô. Ou o mais próximo possível do que seria...
... Caso fosse uma pessoa normal, claro!
 
 
 
 
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