Segunda-Feira, 10 de Abril de 2006
 
Os Valores do Mundo
 
O mundo mudou demais, desde os tempos de nossos pais. O que se dirá do tempo de nossos avós, quando as mulheres cuidavam da família, viviam para o casamento e os filhos? Hoje em dia, esse tipo de perspectiva é inaceitável e as pessoas ficam horrorizadas.

Inseridos nessa realidade, quando corremos contra o tempo na tentativa de resgatar algo que ainda não perdemos, não nos apercebemos de que é um equívoco julgar o passado com o olhar presente. Esse tipo de esclarecimento só é possível quando, por acaso do destino, conversamos com pessoas - agora bem idosas - sobre a vida e os costumes há quarenta ou cinqüenta anos. É impressionante perceber o saudosismo em suas vozes embargadas e o brilho solitário em seus olhos enrugados. Na ânsia por liberdade e modernidade, a sociedade se esqueceu dos antigos conceitos morais que uniam famílias, mantinham casamentos - nem sempre de aparências. As pessoas tinham, talvez, mais tolerância e estavam muito mais atentas ao outro do que a si mesmas.

É assim que ouvimos pessoas saudosas de uma época passada, não por causa da falta de liberdade, e sim porque, hoje, as famílias pouco sentam ao redor da mesa para uma refeição; não se reúnem duas vezes por semana apenas para estar juntos; já não têm tempo de ouvir as mesmas histórias e rir delas como se fosse a primeira vez. As mulheres sentem falta do tempo em que podiam ver os filhos crescerem e tomar chá na casa uma das outras uma vez por semana pelo simples prazer de conversar com as amigas. Os homens sentem falta do tempo em que ter um emprego significava que o patrão confiava no seu trabalho e que progredir na carreira era o mesmo que ficar na mesma empresa até a aposentadoria. Como explicar para essas pessoas que todos os conceitos que norteiam a sociedade mudaram drasticamente? Como fazê-las compreender que foi uma “evolução”, quando o olhar delas sobre o mundo demonstra que muito se perdeu em detrimento de vitórias questionáveis? Sinceramente... Se você acha possível, talvez ainda não tenha realmente tentado.

Todos estão expostos a essas mudanças. A diferença é que os mais idosos a percebem com clareza, os mais novos julgam que sempre foi dessa forma. O diacronismo existe e deve ser muito triste saber que seu tempo passou, que não há quase ninguém da sua geração ainda neste mundo, que tudo aquilo que você sempre defendeu e acreditou já não é importante.

Talvez tenha sido por causa disso que a declaração soou tão chocante à Mikaela naquela manhã de sexta-feira. Sinceramente? Ouvir que seu superior tem segundas intenções para com você não é uma boa notícia, ainda mais quando o mensageiro tem reputação para lá de duvidosa! Emprego novo que não atrapalharia sua paixão: as pesquisas. Tudo estaria perfeito se não fosse a nota com letra de forma, onde se podia ler a léguas de distância “REUNIÃO HOJE ÀS SEIS DA TARDE. O ASSUNTO É PARTICULAR”.

Seis da tarde era o final do expediente. Assunto particular significava assunto delicado. Todos diziam que seu trabalho era excelente. O que mais o chefe poderia desejar além de efetivá-la no cargo? Mikaela sorriu de lado com a confiança daqueles que executam a tarefa com conhecimento de causa. Foi aí que uma voz familiar lhe sussurrou ao ouvido.

“Esse cara vai cantar você”, tudo o que Mikaela conseguiu fazer foi lançar um olhar furtivo por sobre o ombro, bem a tempo de mergulhar nos olhos rubros de Jô. “E, pelo jeito, vai faturar!”

- Pelo amor de Deus! Você é um anjo ou o quê?

“Sou anjo, mas não sou estúpido. Vai por mim, Mika! Finja que não viu esse bilhete e, se ele perguntar, desconversa...”

Mikaela emburrou a cara e tratou de trabalhar como todos os dias. Durante o expediente, cruzou com o chefe umas duas vezes e ele foi educado como sempre, sem dar mostras de nenhuma segunda intenção. Estava convencida de que aquela “coisa” que se auto-entitulava anjo só aparecera para atrapalhar sua vida. Por outro lado... Foi impossível não reconhecer uma ponta de receio. E não tinha nada a ver com Jô, ainda que quisesse acreditar nisso.

De qualquer forma, foi à reunião como o solicitado. O chefe era um homem de meia idade, enxuto, mas as palavras de Jô não saíam de sua cabeça. Queria reconhecimento pelo seu trabalho, não uma cantada de escritório. A conversa girou em torno de seu desempenho, mas Mikaela só relaxou quando percebeu que era um feedback do último mês na função. Fizera mau juízo do homem! Ele era até muito consciencioso.

Em meia hora estava encerrado e veio o convite: “estou com fome, você não? Tem compromisso?”. A consciência lhe gritou sim, as palavras travaram numa hesitação ridícula.

- Que bom. Vamos à lanchonete aí em frente. Eu pago - disse ele com ar profissional. - Quero falar sobre seu cargo, mas não aqui dentro.

E o receio de perder o emprego e a oportunidade? Num mundo tão competitivo, a gente não pode se dar a esse luxo! E, na verdade, por mais pé atrás que estivesse, o homem não havia dado mostras de flerte. Seria apenas um lanche e nada mais. Para bem da verdade, ninguém a estava esperando em casa. O peito oprimiu. No fundo, não queria estar ali, mas a hesitação decidiu por ela e, quando se deu conta, estavam na lanchonete, sentados frente-a-frente.

- Serei direto, Mikaela - começou ele, quando a garçonete se afastou com a entrada e as bebidas. - Você é uma mulher muito interessante e acho que tem um grande futuro na empresa.

- Vai me efetivar? - foi a pergunta casual. Uma vez fora do ambiente de trabalho, Mikaela se sentia menos oprimida.

- Claro! Mais para frente... Antes, acho que precisamos nos conhecer melhor... – disse ele, sem mover um músculo do corpo.

Nem foi preciso. Pelo olhar estreito que lhe lançou, Mikaela deduziu as intenções pérfidas. A vontade de esmurrar a cara daquele vigarista foi quase tão grande quanto a de chorar. Sentia-se insultada, mas sustentou seu olhar com firmeza.

- Não entendi o que quis dizer.

Ele se inclinou em sua direção mas, antes que pudesse fazer qualquer outro movimento, uma voz reconfortante soou pelas costas de Mikaela, trazendo alento.

- Boa noite – o rapaz parara ao lado da mesa e, num reflexo, Mikaela ergueu o olhar para ele, em gratidão

O grito ficou preso na garganta, mas conseguiu disfarçar. Apesar dos cabelos castanhos e dos olhos amendoados, aquele rapaz era...

- Jô?

Ele alargou o sorriso e pareceu iluminar todo o lugar.

- Oi, querida. Que coincidência! Você é...? - perguntou, fitando o homem com expressão serena.

- Ele é o meu chefe. Estávamos falando da minha efetivação... – disse Mikaela, baixando o olhar.

- Bem... Já que estou aqui e o horário de trabalho terminou, posso me sentar, não? - perguntou, puxando a cadeira.

- Na verdade, estamos falando de negócios e seria muita indelicadeza sua se intrometer – foi a resposta rude.

Jô cessou o movimento, aprumou-se outra vez e apoiou as mãos na mesa, aproximando o rosto para fitá-lo mais de perto

- É mesmo? - a pergunta soou marota, e ele deu de ombros, apertando o cachecol rústico ao redor da bochechas coradas pelo frio. - Quase tão indelicado quando você cantar uma funcionária da sua empresa? Perdão, querida... Não pude deixar de ouvir. Estava bem aí, na mesa de trás - declarou, o rosto assumindo um ar sério e atemporal que assustou mesmo Mikaela. - As garçonetes também ouviram... Elas estão um pouco chocadas com a sua atitude.

O homem olhou de soslaio para as atendentes, que o fitavam com raiva contida. Jô sorriu mais, dizendo sem palavras que não havia como negar.

- Não precisa se preocupar com isso - tornou Mikaela, séria. - Vou passar lá amanhã para pegar o correspondente aos meus dias trabalhados.

Com essas palavras, ela se levantou, deu o braço para Jô e rumaram juntos para a saída. Antes de deixarem o estabelecimento, o rapaz não pôde evitar uma última olhadela.

- Até mais, Sr. Nogueira! Na contabilidade dos seus pecados, Deus vai reconsiderar esse deslize! – declarou, com um cumprimento irônico.

Na rua, ainda de braço dado com ele, Mikaela se encostou, como a procurar apoio.

- Onde conseguiu essas roupas?

Jô passou o braço pelos ombros dela, trazendo-a mais para perto.

- Eu também leio as revista de moda junto contigo de vez em quando... Viu? Tinha certeza que seria útil um dia, mesmo sem parecer! - declarou, piscando para ela.

Mikaela riu e lágrimas teimosas escorreram pelo seu rosto.

- Seu tonto... – soluçou. – Desculpa não ter te ouvido.

- Ás vezes o difícil não é ouvir, Mika, mas aceitar. O mundo mudou muito desde que vim para cá pela primeira vez, mas a natureza dos homens permanece a mesma em muitos aspectos.

- São todos aproveitadores, é isso?

- Não... São almas boas que tentam sobreviver todos os dias. A diferença é que alguns sabem como fazê-lo, outros têm que aprender com os próprios erros.

 
Postado por Mikaela, às 20:15
 
 
 
 
Nome: Mikaela Dangelus
Idade: 28 anos
Profissão: Pesquisadora
Signo: Escorpião
Ascendente: Aquário
 
 
Espiritualizada, mas nem tanto... Crédula do merecimento, da justiça, do amor e da humanidade . Uma mulher que tenta bravamente domar o fluxo incontrolavel dos acontecimentos. Muito tempo para sonhar e pouco para colocar os sonhos em prática. Atrapalhada na cozinha, mas jeitosa com a faxina.
 
 
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Jô. Ou o mais próximo possível do que seria...
... Caso fosse uma pessoa normal, claro!
 
 
 
 
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