Quarta-Feira, 04 de Junho de 2006
 
Revelações
 
O dia começara muito estranho , meio que enevoado. Para começo de conversa – ou pensamento – esquecera completamente de que o aniversário do Rodrigo estava marcado, a mais de um mês , para aquela noite ! Deveria ter comprado um vestido novo ... E não poderia chegar na festa sem um presente porque ... Bem , porque o Rodrigo era seu " sonho de consumo ", mesmo sabendo que o rapaz não estava interessado. Ao menos , não parecia!   Conformada com o destino , Mikaela deu de ombros e vestiu um casaco qualquer para sair pela cidade a procura de algo apropriado . Quando caminhava para a porta , uma voz familiar ecoou no apartamento . Por incrível que parecesse, não se assustou. Voltou o olhar na direção do corredor e aguardou. Um rapaz bonito , de cabelos castanhos e intrigantes olhos verdes irrompeu pelo recinto . Vestia uma calça preta de brim e uma malha de lã masculina em dois tons de verde que lhe realçavam o brilho dos olhos .   - Aonde vai? - perguntou ele , cruzando o aposento na direção de Mikaela e enlaçando-a pela cintura com familiaridade .   - Eu ... Hoje é aniversário do Rodrigo e quero comprar um presente especial para ele .   A repulsa foi imediata . O rapaz soltou-a, se afastou dois passos se tanto e a encarou com seriedade .   - Já lhe disse que o cara é chave de cadeia , é perda de tempo ! Poderia se dedicar a quem te ama de verdade !   - Ah, Josiel... Não fala assim do Rodrigo – e o nome dele lhe pareceu estranho de repente . – Porque não vem comigo ? Seria bom ter uma opinião masculina .   Ele deu de ombros e saíram para a manhã fria daquele início de junho . O dia estava lindo , o sol fraco mal aquecia. Sem perceber , Mkaela passou o braço pelo dele e sorriu.   - Já tem alguma idéia ? – foi a pergunta dele.   - Não . Só sei que deve ser bem especial .   - Por que não procuramos alguma coisa esotérica ? Ele é Templário, não é? Mikaela olhou para o outro com desconfiança. Não lhe agradava a idéia de dar algo que estivesse relacionado com seitas ... Crenças ... Ou qualquer outra coisa de cunho tão pessoal . Ainda assim , quando se deu conta , entrava com Josiel pelo batente envidraçado de uma loja esotérica próxima de casa . Nunca se apercebera de que aquela loja existia! Muito estranho ... - O que acha que seria legal dar para ele ? – perguntou a moça , caminhando lentamente entre as prateleiras de vidro , apinhadas de gnomos , incensos , cristais e outros badulaques típicos . - Deixa ver ... Além da sua virgindade ? – estupefata , Mikaela olhou-o, certa de que era uma brincadeira de muito mal gosto , mas Josiel tinha a atenção voltada para uma estante de miniaturas em metal . Seu semblante era sério . – Por que não dá uma espada medieval ? Acho que ele iria gostar ! - Espada ? Não sei não ... – tornou desconfiada , se aproximando do rapaz , não sem antes olhar em volta para ter certeza de que ninguém ouvira o comentário indecente . Josiel a fitou e sorriu, sem motivo ... Um daqueles sorrisos doces e plenos que raras pessoas são capazes de oferecer . Foi a primeira vez que percebeu o quão bonito ele era . Lindo , na verdade . Josiel era uma das criaturas mais lindas que já tivera oportunidade de ver em sua vida . Invadiu-a um sentimento estranho , bem diferente do que sentia por Rodrigo. Afastou aquilo da cabeça quando percebeu a aproximação o dono da loja . - Boa tarde . Em que posso ajudá-los? Perdida, a moça parou um segundo para pensar em que momento a manhã terminara, visto que saíra de casa bem antes do horário do almoço . Foi o suficiente para que Josiel se virasse na direção do homem e, sorrindo, soltasse uma de suas " pérolas ". - Temos um amigo Templário e queremos dar uma espada para ele . A adoração foi substituída, imediatamente , por gana assassina ! Absurdo ! Como ele pôde se voltar para um desconhecido , falar da intimidade do Rodrigo e ainda os colocar naquela situação ? Revoltada, Mikaela fuzilou o rapaz com o olhar , principalmente quando o dono estreitou os olhos .   “ Pronto ... Agora ele vai nos chutar daqui!”   A realidade foi completamente diferente . O homem olhou em volta , como se certificando de que não havia ninguém por perto e, com um gesto de cabeça , os convidou para o fundo da loja .   - Por aqui , por favor .   Mikaela não queria ir , de jeito nenhum . Mas Josiel não facilitou as coisas e pôs-se a seguir o indivíduo . Receosa , a moça puxou-o pelo braço com sutileza , ansiosa para que ele entendesse que não queria continuar . Foi nesse instante que os olhos de Josiel baixaram para os seus , com um tom de verde tão vivo que fez com que o ar lhe faltasse. O rapaz sorriu e, sem avisar , tomou-lhe os lábios num beijo possessivo .   Passada a estupefação , um calor delicioso subiu-lhe pelas costas , arrepiando cada pêlo de seu corpo e queimando sua pele . Josiel se afastou, tão quente quanto si própria , sorriu, acariciou-lhe a face em chamas e, em seguida , se abaixou para sussurrar-lhe junto ao ouvido .   - Confie em mim . Tudo vai dar certo , querida ...   Atordoada, Mikaela só se deu conta de que estavam numa espécie de quartinho escuro quando o homem fechou uma pesada cortina de veludo preto atrás de ambos .   - Podem tirar a roupa , se quiserem – declarou, como se falasse sobre o tempo ! Mikaela quase desmaiou de pânico .   - Hoje não . Queremos apenas a espada , obrigado .   - Vocês é quem sabem. Bem ... Tenho aqui alguns modelos , para todos os gostos .   Para abstrair um pouco daquele disparate sem fim , Mikaela se aproximou de algumas réplicas pequenas de espadas . Já abolira a convicção de antes para presentear Rodrigo com outro tipo de coisa . Na verdade ... Se esquecera completamente de Rodrigo quando Josiel a beijara e nunca , em toda a sua vida , sentira algo assim por alguém . Uma infelicidade imensa tomou conta dela e não conseguiu saber de onde vinha . Buscou o rapaz com o canto do olho . Ele conversava animadamente , tão lindo !   Foi nesse instante que o homem tirou uma espada gigantesca de trás de uma outra cortina e passou-a para as mãos de Josiel que , animado , se virou para a moça .   - Olha , Mika! Achei o presente perfeito !   - Meu Deus ! Isso é... Uma espada ! De verdade !   O rapaz a fitou confuso.   - Sim e não é perfeito ?   - Não , Josiel! É... Um absurdo ! Tudo isso é um absurdo : o nosso dia , essa loja , esse homem , aquele beijo e essa espada ! Será que você não vê ?!

Josiel continuou olhando para ela por um segundo , o semblante sério .

- Podemos discutir nossa relação se você quiser, querida . Mas não aqui – declarou, se voltando para o homem novamente . – Vamos levar . Ela é perfeita .

- Sim . Não encontrarão outra réplica em tamanho original da Excalibur.

- Excalibur?! Você enlouqueceu, Josiel?! – tornou, em pânico , se aproximando para ver melhor . De fato era um lindo trabalho , mas ...

- Ele vai adorar , Mika! Afinal ... Qual Templário não gostaria de ter uma Excalibur? Quanto é?

Fez um breve silêncio e o sangue de Mikaela gelou nas veias .

- Dois milhões .

 

“ Dois milhões ... Meu bom Deus ... Isso não pode ser verdade !”, pensou Mikaela, tentando controlar a vertigem . Josiel alargou ainda mais o sorriso .

- Ótimo – tornou o jovem.

- Péssimo! – berrou Mikaela. – Não tenho todo esse dinheiro!

- A gente coloca no seu cartão de crédito... – sugeriu Josiel com um sorriso luminoso.

- Mas... Eu nem tenho esse limite!

- Tem sim.

E, por alguma força incompreensível, não conseguiu dizer nada, de maneira que eu pouco menos de vinte minutos saíam da loja com uma dívida praticamente impagável, uma espada gigante nos ombros e aquele peso estranho no peito. Josiel carregava a parte da lâmina, envolta num papel reciclado, enquanto que ela carregava o punho. Era ridículo carregar aquele trambolho daquela maneira, mas não tinham alternativas.

- Você não vai me convencer a sair de casa com esse negócio... – disse ela, quando pararam no semáforo, atraindo o olhar de todos os transeuntes.

- Mas não vamos para casa, querida. Temos que entregar o presente, lembra? Vamos direto para a casa do Rodrigo.

Depois de toda a loucura daquele dia, Mikaela não estranhou quando Josiel anunciou que a casa de Rodrigo era logo ali, virando a esquina. Até suspirou aliviada, ansiosa para se livrar do presente. A alameda pareceu e muito com a travessa em que trabalhavam, mas mesmo isso ignorou. Queria se livrar daquela espada antes que algum policial a parasse e detivesse por porte ilegal de arma!

Subiram duas quadras. Uma multidão se aglomerava na frente de uma casa térrea enorme, com os portões abertos. O terrível não foi saber que aquela era a casa do Rodrigo e sim ver uma dezena de pessoas deitadas ao longo da entrada, conversando animadamente, bebendo e fumando, largadas no chão como se fosse a sala de estar de alguém. E todos, sem exceção trajavam roupas inteiramente pretas, com acessório de metal, piercings, correntes... Além dos cortes de cabelo pouco usuais! Olhou para Josiel e percebeu que até mesmo ele estava incomodado com acena. Começou a se preocupar de verdade nesse instante.

Então, como que brotado do chão, um homem surgiu na frente de Mikaela. Com muito custo conseguiu identifica-lo.

- Rodrigo? – perguntou com cautela, tentando reconhecer o anjo de candura que conhecia por detrás do corte moicano.

Ele sorriu e a abraçou com intimidade. Mikaela mal pôde retribuir, tamanho o susto! O cabelo dele estava verde, tinha argolas prateadas nas orelhas, supercílio, lábios... Porém o sorriso meigo continuava o mesmo. Ainda assim não o reconheceu.

- Feliz aniversário, Rodrigo – se adiantou Josiel, tirando Mikaela do estado de torpor com sua voz agradável.

- Sim... Parabéns. Esperamos que goste do presente – declarou, passando a espada para as mãos de Rodrigo.

- O que é isso? – perguntou, curioso, após ter removido o papel de pão que Josiel utilizara ara proteger as mãos da lâmina.

- Uma réplica fiel da Excalibur. Talvez você possa usar... Em algum ritual de magia – sugeriu ela, meio sem graça.

- Magia? Ah, sim... – começou ele, o tom tranqüilo que não combinava com a nova aparência. – Não sou mais Templário! Agora sou Punk!

Vácuo naquele um segundo de Pânico no qual imagens rápidas da jornada até ali a lembravam de detalhes, como o da dívida que fizera para dar a ele um presente como aquele. Num reflexo, Mikaela pôs-se na ponta dos pés e tomou Rodrigo pelo colarinho com fúria.

- Como assim não é mais Templário?! Você era Templário até ontem!!

- As coisas mudam rápido, gata – tornou ele, se afastando e subindo na garupa de uma moto, que acabara de encostar na frente da casa.

Rodrigo acenou, deixando para trás uma Mikaela desolada. A moto cantou pneu e saiu roncando veloz pela rua, no mesmo instante em que a mão quente e terna de Josiel lhe pousou por trás no ombro.

- Nada acontece por acaso, Mika... Talvez agora você compreenda que perfeição é fazer aquilo que está ao nosso alcance dando o máximo de nós, nem mais nem menos.

- Tem razão... E eu nem acho que foi um presente perfeito! Não sei o que poderia acontecer de pior hoje – murmurou, enquanto acompanhava Rodrigo ir embora de carona.

- Bem, você poderia estar guiando aquela moto.

As palavras de Josiel ecoaram pelo ar um segundo antes da moto desaparecer em meio a um barulho ensurdecedor, seguido de explosão.

* * *

Mikaela se sentou na cama, suando frio e ofegante. Por um segundo, não sabia onde estava até reconhecer seu próprio quarto, sua cama, sua casa. Suspirou aliviada, correndo as mãos pelos cabelos para espantar um pouco a sensação de morte.

“A morte é a única certeza que as pessoas têm na vida. Não consigo compreender porque a temem tanto...”, foi o comentário sereno que ecoou em sua mente, obrigando-a a se virar na direção dele. “Noite ruim?”.

Jô estava apoiado no parapeito da janela, por onde entrava a luz azulada da lua. As cortinas de renda balançavam suaves ao sabor da brisa, se entrelaçando com as vestes dele e lhe atribuindo um ar ainda mais diáfano. De onde estavam podia ver apenas parte de seu corpo esguio e o perfil de traços harmoniosos que compunham o todo de sua imagem etérea. O silêncio se estendeu por mais tempo que o usual. Percebeu quando Jô psicou e voltou o rosto atemporal em sua direção, os olhos vermelhos brilhando como chamas, os cabelos longos trançados com tiras de prata.

“Você está bem?”, perguntou, descendo da janela com movimentos leves e avançando na direção dela.

- Sim! – respondeu, urgente. – Não precisa vir até aqui.

“Não preciso ou não devo?”

Novo silêncio, dessa vez mais tenso.

- Não sei...

“Compreendo”.

Ao contrário do costume, Jô não voltou ao parapeito. Dessa vez, ficou parado no mesmo lugar, no meio do quarto, fitando Mikaela com atenção desconcertante. A sensação de ser tocada por ele, de ter os lábios doces nos seus, a fizeram estremecer e baixou os olhos, envergonhada e entristecida.

- Seu nome é Josiel?

“Sim. Como descobriu?”

Mikaela deu de ombros e ergueu o rosto novamente, sem contudo fitá-lo.

- Por que não me contou?

“Porque não gosto dele e porque julguei que não faria diferença para você”.

- É um anjo. Não deveria julgar, não é verdade? – e, dessa vez, foi impossível não se perder em seus olhos rubros.

Cauteloso, Jô avançou, bem lento, até se sentar na beiradinha da cama, bem distante dela.

“Você tem razão. Tem razão em muitas coisas, Mika! Muito mais coisas do que imagina. Eu não deveria julgar. Talvez não o faça como você pois não sou humano. Porém já vivi tempo suficiente entre a humanidade para...”, cessou de repente, como se refletisse sobre o que dizia.

- Para o quê? – indagou, ansiosa.

Josiel voltou o rosto para ele e sorriu... Doce como o rapaz em seus sonhos. Os olhos de Mikaela marejaram.

“Para me encantar por ela ”.

Um sentimento imenso preencheu o peito de Mikaela a ponto de se sentir sufocada. Quando deu por si, chorava copiosamente. Josiel se aproximou e, apesar de não senti-lo como no sonho, viu quando se sentou à cabeceira da cama e ofereceu seu colo para que deitasse. As mãos dele acariciaram os cabelos de Mikaela enquanto sua voz serena entoava uma música suave que levou embora a dor, apesar de sentir a ausência do toque dele em sua pele. Não comentou nada. Apenas fechou os olhos, cansada.

- Não quero ir ao aniversário do Rodrigo hoje.

“E por que, não? Estava muito empolgada para estar com o seu querido”, a brincadeira só fez Mikaela se sentir mais perdida.

- Não conheço ninguém lá... e a nova namorada dele vai estar, então... Pensei que, talvez... Pudéssemos...

“Pudéssemos o quê?”, e a pergunta continha apenas curiosidade.

- Sei lá! Podíamos ir ao cinema, depois comer em algum lugar. O que acha? – silêncio... insuportável. Decidiu continuar para não perder a coragem. – Você poderia me contar mais da sua visão da humanidade e então... Não seríamos mais estranhos um para o outro.

“Você não é uma estranha para mim, querida”, o tratamento fez Mikaela estremecer sem querer e se encolheu mais contra as cobertas. “Sei tudo sobre você”.

- Mas eu não sei nada sobre você, Jô... Agora, isso me incomoda.

“Certo. Por que não combinamos pela manhã, depois que tiver descansado e se esquecido desse sonho absurdo? Não será justo contigo, não será correto... Eu sei. Mas estou feliz, pois ao menos você é abençoada com a dádiva do esquecimento. É melhor assim” .

O cansaço era tamanho que Mikaela mal pôde ouvir o que ele lhe dizia, contudo ficou-lhe a estranha sensação de que seus pensamentos não lhe pertencam mais... De que tudo aquilo se perdia em brumas. De qualquer forma, a sensação de leveza era deliciosa e relaxou contra o colchão, pronta para adormecer com o perfume dele entranhado em seus sentidos.

- A questão é... Querido Jô... Não quero esquecer...

Antes que pudesse completar, adormeceu com um sorriso leve nos lábios.

 
Postado por Mikaela, às 08:46
 
 
 
Domingo, 21 de Maio de 2006
 

Direitos e Deveres

 

Existem dias que a gente sabe que tudo vai dar errado. O problema não é esse . Problema é quando somos pegos de surpresa . E quem nunca passou por isso ... Como atirar pedra é muito extremista , levantar o dedo está valendo nesse caso . Acordar antes do despertador tocar , por si só , já era uma façanha . Aliás , seu maior caso de amor era mesmo com a cama . Mas aquele dia parecia diferente dos outros . Abriu a janela para olhar o pedacinho de céu disponível . Dava para deduzir que não havia uma só nuvem no céu !

A promessa de um lindo dia afastou os fantasmas . Havia deixado o emprego de meio-período por causa do chefe e agora estava trabalhando só com pesquisa na parte da manhã . Claro que era temporário porque adorava a USP e pretendia trabalhar lá por muito tempo ainda , mas precisava pagar as contas , mal necessário e fiel que aflige 99% das pessoas do mundo ! Ao 1% restante cabia todas as demais categorias .

Correu para cumprir sua rotina matutina . Saiu um pouco mais cedo para comprar o jornal e esperar o ônibus . “MP3 player” no ouvido , classificados de emprego à mão , pasta debaixo do braço e meia hora de espera ao vento do auge de junho . O sol não se intimidara, brilhava como nunca ... Sem espantar o frio . Até a USP eram duas horas de condução . Para tal , separou quatro reais em notas de dois , para a integração metrô-ônibus ( Quem não mora em São Paulo: é possível comprar um bilhete especial em determinadas linhas de ônibus , que permite aos passageiros pagarem uma única taxa para metro + ônibus com economia de 50 centavos por bilhete ). Ao embarcar , cumprimentou o motorista com um simpático “ bom dia ”.

Até aí , Mikaela estava convencida de que seria um dia ensolarado comum , se não ordinário . Ela estava realmente preparada para isso : ir para a USP, trabalhar as suas seis horas , conversar um pouco com o único colega de sala e voltar para a casa . Nem se apercebeu de que Jô não estava a vista desde a noite anterior . Foi encontrá-lo dentro do ônibus , lá no fundo , equilibrado num dos encostos . Fingiu que não estava vendo. Havia vários assentos livres e queria ficar bem longe de encrenca .

— Bom dia — foi o cumprimento que ela lançou ao cobrador , segurando firme para não cair . — Você tem integração para vender ? — eles nem sempre tinham...

— Tenho — respondeu o homem , erguendo o olhar da apostila que estava lendo e mirando Mikaela com cara irritada. Ignorou o mau humor dele e estendeu as duas notas de dois reais , com um sorriso satisfeito . — Mas não tenho troco , não — foi a resposta grosseira que ele deu antes de baixar o olhar à apostila novamente .

— Você não tem troco ?! — perguntou, espantada, retirando os fones para ouvir melhor . Ele nem respondeu dessa vez . — Mas a passagem é três e sessenta! Está me dizendo que não tem quarenta centavos para me dar ?

— Não tenho troco ! — declarou novamente , mais alto . — E você está atrapalhando a minha leitura !

A falta de educação dele era tamanha que Mikaela não conseguiu dizer nada por um segundo . E ficou ali , estática . Aos poucos , a estupefação virou revolta . Mesmo que ele não tivesse troco , tinha o dever de ser gentil com as pessoas , ainda mais se estavam sendo gentis com ele ! O sangue ferveu e não teve jeito . A moça agarrou a pasta debaixo do braço e empertigou os ombros em cima do salto .

— Bom ... O negócio é o seguinte : você tem o bilhete disponível e eu tenho direito de comprar . Estou com o dinheiro aqui , na minha mão . Se até o meu ponto você não tiver os quarenta centavos , não tem problema ! Eu desço pela frente .

E, tendo dito isso , Mikaela se afastou alguns passos para arranjar espaço próximo à porta da frente . Sua sorte era que seu ponto era numa estação de metrô e, àquela hora , o motorista seria obrigado a abrir para os passageiros embarcarem. Quando percebeu que o cobrador ia começar a falar novamente , pegou discretamente o aparelho de MP3 e deixou-o à mão .

— Olha aqui dona , eu não tenho obrigação nenhuma de vender o bilhete de integração para você , não ! Vê se arranja o Bilhete Único ( cartão magnético que substituiu o dinheiro e os bilhetes de metrô nas integrações ) — continuou ele , berrando para o ônibus todo ouvir . — Tô falando contigo mesmo , aí na frente . Você não quer é pagar a passagem ! Tá querendo dar calote ! Vejo gentinha que nem você todo dia .

A raiva era tanta que Mikaela sentiu os olhos turvos . Queria voar no pescoço do infeliz e enchê-lo de pancada , mas não fez isso . Ao contrário , esperou que o ônibus parasse num semáforo mais longo , pegou a caneta no bolso de dentro do casaco e pôs-se a anotar todas as informações do veículo .

Não satisfeito , o cobrador começou a gritar que ela reclamasse sim , que não ia dar em nada mesmo . Berrou seus dados pessoais também , como nome , número de registro na empresa , número do ônibus ... Tudo intercalado com novos insultos . Depois de uns 20 minutos nesse martírio , tendo Mikaela se tornado a atenção principal do ônibus , finalmente ele se calou. O restante da viagem transcorreu sem incidentes – apesar de seu dia estar arruinado logo pela manhã .

A vontade de gritar era quase insuportável ... Mas , de repente , ao avistar seu ponto , Mikaela sentiu uma paz imensa e um perfume de lavanda delicioso invadiu o ambiente . O veículo parou e, quando virou para descer pela porta da frente , deu de cara com Jô, fazendo uma careta engraçada . O perfume de lavanda aumentou.

— Hei, moça — o chamado do motorista a impediu de descer por um segundo . — Vai sair pela frente ?

O sangue ferveu outra vez pela lembrança do ocorrido mas se controlou com tranqüilidade .

— Pois é. O cobrador tem a integração e diz que não quer me vender porque não tem troco para quatro reais ... — explicou, com gentileza .

— Ela tem dois reais para pagar a passagem . Não paga porque não quer ! Quer viajar de graça ! — tornou o cobrador , aos berros

Mikaela ignorou-o e fitou o motorista novamente .

— Tenho quatro Reais para comprar Integração . Ele tem obrigação de me vender o bilhete . Se não tem troco , saio pela frente .

O motorista assentiu e abriu a porta . Antes de descer , Mikaela olhou uma última vez para o cobrador , sorrindo.

— Vou ligar para o número de reclamação e dar todos os seus dados ... — ele deu de ombros . — E vou aproveitar para dizer que você me difamou dentro do ônibus aos berros . Gravei tudo o que você me disse... — e mostrou o aparelho de MP3 — Tem microfone .

Foi quase orgasmático ver o ônibus se distanciando com o rosto pálido do cobrador colado no vidro . Embarcou no metrô , pegou o segundo ônibus e foi apenas quando estava dentro , já na Cidade Universitária que pegou o celular na bolsa . Não queria falar no serviço para não abrir sua vida particular . Afinal de contas , foi a maior vergonha !

Quando ouviu a atendente , descreveu todo o ocorrido em detalhes , passando para ela os dados recolhidos no ônibus . A queixa foi registrada formalmente e anexadas as informações de que o cobrador a havia difamado e que o motorista , por outro lado , havia sido muito gentil . Finda a ligação , anotado o protocolo , ergueu o rosto e mergulhou nos olhos vermelhos de Jô. Ele tinha o semblante sério e foi muito estranho vê-lo desse jeito .

“Está mais feliz agora ?”

— Feliz ? Hummm... Não sei, porque o cara pode perder o emprego , não é? Por outro lado , o que ele fez é errado e me senti agredida. Não estou feliz , fiz apenas o que era certo . Espero que ele não faça algo assim novamente . Por que está me perguntando isso ?

“ Por nada ! Apenas para que você saiba depois que esse foi o motivo das suas atitudes . As pessoas agem assim : na maioria das vezes ferem umas às outras porque não pensam sobre o efeito de seus atos . Elas não avaliam as conseqüências ... Bom , não quero que isso aconteça contigo ”.

— Jô... Não vou me arrepender , fique tranqüilo .

— Quem é Jô? — foi uma voz familiar que a alcançou, por trás . Vexada, Mikaela virou lentamente , bem a tempo de ver seu colega de sala tomar assento ao seu lado . — Achei que estava falando com o serviço de reclamação dos ônibus .

— Ai... Rodrigo! Falei muito alto ?

O rapaz riu. Era alto e esguio . Tinha aproximadamente uns 26 anos , mas cara de 16! Cabelos loiros e lisos até os ombros , olhos azuis, feições finas e clássicas. Sim ! Ele era MUITO bonito ... E parecia um anjo de verdade ! Por que seu anjo não parecia um anjo e Rodrigo parecia?

“ Mais um dos mistérios que regem o universo , minha cara ! Se não está satisfeita , troca !”

“Estou no meio de uma conversa agora . Não me atrapalhe”, tornou em pensamento , não muito certa de que Jô daria ouvidos .

— O ônibus está vazio e essas atendentes sempre falam muito baixo — sugeriu ele . — Mas deu para pegar a parte que ele te insultava em público . Dia ruim !

— Nem me fale... — comentou, ainda mais vermelha . Jô se aproximou e agachou bem ao lado de Rodrigo. Da onde estava, Mikaela teve a impressão que enfiaria sua cara na do rapaz . “ Pelo amor de Deus , Jô. Pára com isso !”

“ Ele não pode me ver ...”

“ Mas EU posso!”

Jô deu de ombros e se afastou na direção da porta traseira .

“Saquei. Prefere o seu amigo Templário a mim , né? Tudo bem .”, diante da expressão surpresa da moça , Jô sorriu, piscou e desapareceu, não sem antes deixar sua voz pairando. “ Eu estarei por perto ...”

— Mikaela?! — a voz preocupada de Rodrigo a trouxe de volta . — Tudo bem contigo ?

— Tudo ... Desculpa ! É que o final de semana foi meio tumultuado. Sabe como é...

— Ah, sei! Mas tirei esses três dias para mim . A gente nem pôde conversar sobre o seu problema lá no outro emprego .

— Puxa , Rodrigo! Esse assunto é tão longo que é melhor a gente marcar uma tarde só para conversar sobre isso — sugeriu. Se ele aceitasse, seria o máximo ! — Mas me conta ! Por que faltou na sexta-feira ?

Deram o sinal e desceram quase em frente ao prédio da faculdade . O sol estava mais forte e o frio ali era ainda maior ! Caminharam lado a lado pela calçada , sem muita pressa .

— Acho que acabei não te contanto , né? Mas fui aceito na Ordem Templária e...

— Como ?! Ordem ?! — foi impossível conter o susto .

Rodrigo olhou para ela , divertido .

— É. A Ordem dos Cavaleiros Templários. Sou um Templário agora . Viajei sexta-feira e passei o final de semana no sítio da Ordem , para a minha iniciação . Mas é um assunto bem longo . É melhor a gente marcar ...

— No mesmo dia que eu for contar sobre o meu trabalho .

— Que tal ... Hoje de tarde ? Tem alguma coisa para fazer ?

— Não ... — respondeu ela .

— Legal . Te pago um cinema ...

Mikaela sorriu e se encolheu dentro do casaco . O dia não estava todo perdido, afinal .

 
Postado por Mikaela, às 12:07
 
 
 
Segunda-Feira, 10 de Abril de 2006
 
Os Valores do Mundo
 
O mundo mudou demais, desde os tempos de nossos pais. O que se dirá do tempo de nossos avós, quando as mulheres cuidavam da família, viviam para o casamento e os filhos? Hoje em dia, esse tipo de perspectiva é inaceitável e as pessoas ficam horrorizadas.

Inseridos nessa realidade, quando corremos contra o tempo na tentativa de resgatar algo que ainda não perdemos, não nos apercebemos de que é um equívoco julgar o passado com o olhar presente. Esse tipo de esclarecimento só é possível quando, por acaso do destino, conversamos com pessoas - agora bem idosas - sobre a vida e os costumes há quarenta ou cinqüenta anos. É impressionante perceber o saudosismo em suas vozes embargadas e o brilho solitário em seus olhos enrugados. Na ânsia por liberdade e modernidade, a sociedade se esqueceu dos antigos conceitos morais que uniam famílias, mantinham casamentos - nem sempre de aparências. As pessoas tinham, talvez, mais tolerância e estavam muito mais atentas ao outro do que a si mesmas.

É assim que ouvimos pessoas saudosas de uma época passada, não por causa da falta de liberdade, e sim porque, hoje, as famílias pouco sentam ao redor da mesa para uma refeição; não se reúnem duas vezes por semana apenas para estar juntos; já não têm tempo de ouvir as mesmas histórias e rir delas como se fosse a primeira vez. As mulheres sentem falta do tempo em que podiam ver os filhos crescerem e tomar chá na casa uma das outras uma vez por semana pelo simples prazer de conversar com as amigas. Os homens sentem falta do tempo em que ter um emprego significava que o patrão confiava no seu trabalho e que progredir na carreira era o mesmo que ficar na mesma empresa até a aposentadoria. Como explicar para essas pessoas que todos os conceitos que norteiam a sociedade mudaram drasticamente? Como fazê-las compreender que foi uma “evolução”, quando o olhar delas sobre o mundo demonstra que muito se perdeu em detrimento de vitórias questionáveis? Sinceramente... Se você acha possível, talvez ainda não tenha realmente tentado.

Todos estão expostos a essas mudanças. A diferença é que os mais idosos a percebem com clareza, os mais novos julgam que sempre foi dessa forma. O diacronismo existe e deve ser muito triste saber que seu tempo passou, que não há quase ninguém da sua geração ainda neste mundo, que tudo aquilo que você sempre defendeu e acreditou já não é importante.

Talvez tenha sido por causa disso que a declaração soou tão chocante à Mikaela naquela manhã de sexta-feira. Sinceramente? Ouvir que seu superior tem segundas intenções para com você não é uma boa notícia, ainda mais quando o mensageiro tem reputação para lá de duvidosa! Emprego novo que não atrapalharia sua paixão: as pesquisas. Tudo estaria perfeito se não fosse a nota com letra de forma, onde se podia ler a léguas de distância “REUNIÃO HOJE ÀS SEIS DA TARDE. O ASSUNTO É PARTICULAR”.

Seis da tarde era o final do expediente. Assunto particular significava assunto delicado. Todos diziam que seu trabalho era excelente. O que mais o chefe poderia desejar além de efetivá-la no cargo? Mikaela sorriu de lado com a confiança daqueles que executam a tarefa com conhecimento de causa. Foi aí que uma voz familiar lhe sussurrou ao ouvido.

“Esse cara vai cantar você”, tudo o que Mikaela conseguiu fazer foi lançar um olhar furtivo por sobre o ombro, bem a tempo de mergulhar nos olhos rubros de Jô. “E, pelo jeito, vai faturar!”

- Pelo amor de Deus! Você é um anjo ou o quê?

“Sou anjo, mas não sou estúpido. Vai por mim, Mika! Finja que não viu esse bilhete e, se ele perguntar, desconversa...”

Mikaela emburrou a cara e tratou de trabalhar como todos os dias. Durante o expediente, cruzou com o chefe umas duas vezes e ele foi educado como sempre, sem dar mostras de nenhuma segunda intenção. Estava convencida de que aquela “coisa” que se auto-entitulava anjo só aparecera para atrapalhar sua vida. Por outro lado... Foi impossível não reconhecer uma ponta de receio. E não tinha nada a ver com Jô, ainda que quisesse acreditar nisso.

De qualquer forma, foi à reunião como o solicitado. O chefe era um homem de meia idade, enxuto, mas as palavras de Jô não saíam de sua cabeça. Queria reconhecimento pelo seu trabalho, não uma cantada de escritório. A conversa girou em torno de seu desempenho, mas Mikaela só relaxou quando percebeu que era um feedback do último mês na função. Fizera mau juízo do homem! Ele era até muito consciencioso.

Em meia hora estava encerrado e veio o convite: “estou com fome, você não? Tem compromisso?”. A consciência lhe gritou sim, as palavras travaram numa hesitação ridícula.

- Que bom. Vamos à lanchonete aí em frente. Eu pago - disse ele com ar profissional. - Quero falar sobre seu cargo, mas não aqui dentro.

E o receio de perder o emprego e a oportunidade? Num mundo tão competitivo, a gente não pode se dar a esse luxo! E, na verdade, por mais pé atrás que estivesse, o homem não havia dado mostras de flerte. Seria apenas um lanche e nada mais. Para bem da verdade, ninguém a estava esperando em casa. O peito oprimiu. No fundo, não queria estar ali, mas a hesitação decidiu por ela e, quando se deu conta, estavam na lanchonete, sentados frente-a-frente.

- Serei direto, Mikaela - começou ele, quando a garçonete se afastou com a entrada e as bebidas. - Você é uma mulher muito interessante e acho que tem um grande futuro na empresa.

- Vai me efetivar? - foi a pergunta casual. Uma vez fora do ambiente de trabalho, Mikaela se sentia menos oprimida.

- Claro! Mais para frente... Antes, acho que precisamos nos conhecer melhor... – disse ele, sem mover um músculo do corpo.

Nem foi preciso. Pelo olhar estreito que lhe lançou, Mikaela deduziu as intenções pérfidas. A vontade de esmurrar a cara daquele vigarista foi quase tão grande quanto a de chorar. Sentia-se insultada, mas sustentou seu olhar com firmeza.

- Não entendi o que quis dizer.

Ele se inclinou em sua direção mas, antes que pudesse fazer qualquer outro movimento, uma voz reconfortante soou pelas costas de Mikaela, trazendo alento.

- Boa noite – o rapaz parara ao lado da mesa e, num reflexo, Mikaela ergueu o olhar para ele, em gratidão

O grito ficou preso na garganta, mas conseguiu disfarçar. Apesar dos cabelos castanhos e dos olhos amendoados, aquele rapaz era...

- Jô?

Ele alargou o sorriso e pareceu iluminar todo o lugar.

- Oi, querida. Que coincidência! Você é...? - perguntou, fitando o homem com expressão serena.

- Ele é o meu chefe. Estávamos falando da minha efetivação... – disse Mikaela, baixando o olhar.

- Bem... Já que estou aqui e o horário de trabalho terminou, posso me sentar, não? - perguntou, puxando a cadeira.

- Na verdade, estamos falando de negócios e seria muita indelicadeza sua se intrometer – foi a resposta rude.

Jô cessou o movimento, aprumou-se outra vez e apoiou as mãos na mesa, aproximando o rosto para fitá-lo mais de perto

- É mesmo? - a pergunta soou marota, e ele deu de ombros, apertando o cachecol rústico ao redor da bochechas coradas pelo frio. - Quase tão indelicado quando você cantar uma funcionária da sua empresa? Perdão, querida... Não pude deixar de ouvir. Estava bem aí, na mesa de trás - declarou, o rosto assumindo um ar sério e atemporal que assustou mesmo Mikaela. - As garçonetes também ouviram... Elas estão um pouco chocadas com a sua atitude.

O homem olhou de soslaio para as atendentes, que o fitavam com raiva contida. Jô sorriu mais, dizendo sem palavras que não havia como negar.

- Não precisa se preocupar com isso - tornou Mikaela, séria. - Vou passar lá amanhã para pegar o correspondente aos meus dias trabalhados.

Com essas palavras, ela se levantou, deu o braço para Jô e rumaram juntos para a saída. Antes de deixarem o estabelecimento, o rapaz não pôde evitar uma última olhadela.

- Até mais, Sr. Nogueira! Na contabilidade dos seus pecados, Deus vai reconsiderar esse deslize! – declarou, com um cumprimento irônico.

Na rua, ainda de braço dado com ele, Mikaela se encostou, como a procurar apoio.

- Onde conseguiu essas roupas?

Jô passou o braço pelos ombros dela, trazendo-a mais para perto.

- Eu também leio as revista de moda junto contigo de vez em quando... Viu? Tinha certeza que seria útil um dia, mesmo sem parecer! - declarou, piscando para ela.

Mikaela riu e lágrimas teimosas escorreram pelo seu rosto.

- Seu tonto... – soluçou. – Desculpa não ter te ouvido.

- Ás vezes o difícil não é ouvir, Mika, mas aceitar. O mundo mudou muito desde que vim para cá pela primeira vez, mas a natureza dos homens permanece a mesma em muitos aspectos.

- São todos aproveitadores, é isso?

- Não... São almas boas que tentam sobreviver todos os dias. A diferença é que alguns sabem como fazê-lo, outros têm que aprender com os próprios erros.

 
Postado por Mikaela, às 20:15
 
 
 
 
Terça-feira, 28 de março de 2006
 
Conflitos Religiosos
 
Muitas coisas na vida são frustrantes. Mikaela se sentia dessa forma cada vez que abria um jornal. Cadernos e mais cadernos recheados com violência, políticos corruptos, assassinatos e todo o tipo de inutilidade que nos recorda da realidade: viver não é nada fácil.

Por isso, resolveu não ler mais jornais. Assinou a revista de notícias mais popular do país. “As revistas também informam e, ao mesmo tempo, trazem mais cultura!”. Não fora de todo engano... Porém estava muito longe da verdade.

Saiu de casa com o exemplar de baixo do braço. Quinze estações de metrô até seu destino tornavam quase obrigatória uma alternativa de entretenimento! A revista viria bem a calhar. Procurou logo um lugar para se sentar e abriu na parte internacional — queria dar um tempo dos escândalos políticos e presidenciáveis. Foi quando se deparou com uma matéria sobre o fanatismo religioso do Oriente, o genuíno contra-senso entre fé, liberdade de expressão e diferenças culturais que levaram à discriminação, morte e assassinato. Fechou a revista antes de alcançar a baldeação. Sua derradeira esperança era mergulhar no trabalho e ocupar a cabeça com outra coisa.

“Livre arbítrio”, foi o pensamento sussurrado que ecoou na cabeça de Mikaela. Era inútil negar... Optara por se sentir frustrada!

Cruzou o corredor de acesso sem olhar para ninguém, os pensamentos distantes. Antes de subir para a área de pesquisa, pensou em tomar um café e fazer algumas anotações na lanchonete. Suspirou aliviada quando puseram a xícara diante de si. Procurou uma mesa de canto, deixou a pasta na cadeira ao lado e sentou-se. Tinha certeza de que meia hora atrasada não frustraria nenhum dos colegas de trabalho. Sorriu e buscou o caderno de anotações.

De repente, uma sombra desconhecida se estendeu na direção da mesa, inconveniente.

— Bom dia! — saudou, com euforia, uma voz jovem. — Posso falar contigo um instante?

Sem saída, Mikaela ergueu o olhar do bloquinho para a figura. Pelas feições, deveria ser estudante da graduação; pela roupa, — saia comprida e camisa de mangas compridas abotoada até o pescoço — não lhe restaram dúvidas. Antes que pudesse responder “não”, ela já havia se sentado numa das cadeiras vazias.

“Mas que droga! Hoje não é o meu dia... E nem começou direito!”.

— Você deve se lembrar de mim — começou a garota, estendendo a mão para cumprimentar Mikaela. Apesar de não estar disposta, educação era algo que prezava, de maneira que retribuiu o gesto.— Sou a Adriana! Informei as horas para você na semana passada!

— Desculpe, Adriana. Não me lembro. Mas se você diz, acredito. Servida? — perguntou, oferecendo a xícara de café.

— Não, obrigada. Qual o seu nome? — indagou ela, com semblante quase angelical

— Mikaela.

— Pois então, Mikaela... Não vim falar contigo por acaso.

“Disso eu tenho absoluta certeza, minha filha!”, pensou, mas segurou a ironia a tempo de não ser rude. Afinal... A tal Adriana não havia falado nada que pudesse chateá-la. “Não ainda”, tornou seu sexto sentido, tentava alertá-la para algo inevitável. Quase se levantou para ir embora. Antes que terminasse de emborcar a xícara, Adriana resolveu continuar.

— Vim porque o meu Senhor Jesus me enviou para lhe fazer um convite.

Tudo o que Mikaela conseguiu fazer foi deixar a xícara no pires e encarar a tal garota que, com ar muito sério, a mirava com ar quase dramático.

— Desculpe... Acho que não entendi.

— O Senhor me colocou no seu caminho para livrá-la do demônio que a acompanha.

Dividida entre a raiva e a estupefação, Mikaela gargalhou alto, atraindo a atenção de alguns clientes e, ao que parecia, ofendendo Adriana.

— Demônio?

— Sim. Você não acredita no demônio, mas ele está em toda a parte. Não acreditar nele é o que lhe dá forças!

Mikaela se inclinou na mesa em direção a Adriana e sorriu de lado, sarcástica.

— Por que você acha que tem direito de vir até aqui, sentar na minha mesa em plena manhã de segunda-feira e dizer que estou acompanhada de um demônio?

— Esse é o meu papel, é a minha crença! — devolveu Adriana, firme.

— Pois não é a minha. Eu acredito noutra coisa, mas não fui até você te encher o saco nem te impor o meu ponto de vista! Esse é o problema dos fanáticos.

— Não sou fanática! Eu...

— Olha... — interrompeu Mikaela. — Vou te fazer uma proposta: vou a uma sessão da sua igreja se você for num psiquiatra contar para ele que vê demônios O que você acha? — silêncio. — Como eu imaginei. A gente se vê por aí.

Mikaela pegou sua pasta e saiu da lanchonete pisando duro. Aquilo era demais para agüentar, não? Ao longe, ainda ouviu a tal Adriana dizer que estaria à disposição quando o Demônio aparecesse. Como se realmente fosse aparecer. A raiva era tanta que entrou no banheiro feminino sem se dar conta. Vazio.

Aproveitou para jogar uma água no rosto. Mais tranqüila, ergueu o olhar para sua própria imagem no espelho... E deparou-se com uma figura estranha que, próxima à porta, a encarava com ar sério. Trajava uma túnica diáfana que disfarçava sua silhueta esguia. O cabelo longo, de um loiro pálido e esquisito, estava trançado com tiras cintilantes. Mas o mais perturbador eram seus olhos, de um vermelho vivo.

“Ai meu Deus!”, gritou em pensamento, encolhendo-se e olhando de canto para a porta do banheiro. Não havia nada lá. Suspirou, as pernas trêmulas. Buscou o batom no estojo de maquiagem e voltou ao espelho, convencida de que ficara impressionada. Seu olhar mergulhou no vermelho abrasador das íris daquela criatura, agora a um palmo de distância.

— Quem é você?! — tornou, os olhos fixos na imagem refletida.

“Se continuar falando assim, vão sugerir que vá a um psiquiatra...”, a voz soou direto em sua mente com uma ponta de sarcasmo. “Não vai dar esse gostinho a ela, vai? Eu ouço os seus pensamentos...”

Mikaela respirou fundo, tentando raciocinar: estava no banheiro feminino, de frente para o espelho “pensando” com uma coisa que não existia! Talvez, devesse mesmo procurar um psiquiatra e, de quebra, processar aquela fanática religiosa que a deixara perturbada.

“Quanta besteira...”, disse ele, sentando na borda da pia e vagando o olhar pelo ambiente. Mikaela aproveitou para olhar diretamente em sua direção. Nada. “Não se preocupe, agora que me mostrei, em breve poderá me ver de verdade. Não estava nos planos alguém te avisar a meu respeito”.

“Você é um demônio?”, indagou, buscando-o pelo espelho e se deparando com o semblante consternado.

“Demônio?! Olha bem pra mim, mulher! Pareço um demônio para você?!”

“Como vou saber? Nunca vi nenhum...”

Ele riu com gosto. Sua gargalhada foi tão alta que Mikaela chegou a ouvir! Mas não como uma gargalhada comum e sim como o repicar distante e suave de sinos.

“Pode me chamar de Jô. Sou seu anjo da Guarda!”, disse ele. “Mas não espere muito não, que sou novo nesse trampo...”

“Novo?! Como assim, novo?! Vocês não existem desde sempre?”

“É. Mas antes eu só abanava o Cara, entendeu? Bom... Não estou autorizado a te contar mais nada. Ah... Vê se não se mete em mais confusão, certo?”

Confusão? Não fazia idéia a que aquela criatura esquisita se referia! Quando procurou por ele através do espelho, havia desaparecido. Num reflexo comum, Mikaela se virou na tentativa de encontrá-lo... E o banheiro estava apinhado de gente, — com certeza por causa do intervalo das aulas — todas olhando de soslaio como se fosse a maior aberração do planeta.

“Ainda mais essa! Aberração aqui, só ele!”

“Eu ouvi isso, Mika!”

“Não me chame de Mika, sua... Coisa!”, tornou, pegando sus pertences e deixando o banheiro para trás.

Entrou na própria sala, louca para trabalhar. Como que por acaso, a revista, ainda aberta na tal fatídica matéria religiosa, caiu no chão bem diante dela. “Conflito religioso é apenas mais um fator que inibe o bom-senso...”

Num acesso de ira, Mikaela pegou a revista e rasgou-a no meio, sob o olhar curioso de seu colega de pesquisa.

— O bom-senso que se dane!

 
Postado por Mikaela, às 11:26
 
 
 
 
 
Nome: Mikaela Dangelus
Idade: 28 anos
Profissão: Pesquisadora
Signo: Escorpião
Ascendente: Aquário
 
 
Espiritualizada, mas nem tanto... Crédula do merecimento, da justiça, do amor e da humanidade . Uma mulher que tenta bravamente domar o fluxo incontrolavel dos acontecimentos. Muito tempo para sonhar e pouco para colocar os sonhos em prática. Atrapalhada na cozinha, mas jeitosa com a faxina.
 
 
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... Caso fosse uma pessoa normal, claro!
 
 
 
 
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